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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Palestra com Edgar Morin hoje, 02 de julho de 2009 na UFRJ.

O sociólogo tratou das questões relativas ao tecido complexo em que as sociedades globalizadas estão imersas, este tecido, segundo ele, faz parte de uma estrutura única, globalizada.

A estrutura de tecido globalizado chega, na contemporaneidade, à crise fruto da falência da técnica, da economia e das estruturas políticas ao redor do globo.

O processo de globalização que provoca a união das instâncias e do tecido global, é o mesmo que favorece a desunião onde, diversas culturas se colocam como espaços de resistência à ação civilizadora ocidentalizante.

Apresentou ainda a crise do futuro, para ele a idéia de progresso como uma lei, como algo permanente, se desarticulou no final do século passado. A promessa de uma vida melhor efetuada pela técnica não se confirmou, agravando a crise de paradigmas na sociedade pós-moderna.

Por outro lado, Morin abordou as questões da resistência à unificação e homogeneização dentro da globalização. Um conjunto de crises chega a todos os segmentos da sociedade e agora chega ao sistema de regulação. Questões tais como a poluição, o meio ambiente, a degradação da natureza e da vida, provocam crises nas sociedades tradicionais bem como nas sociedades modernas logo, a modernização do ocidente encontra-se em crise.

Crises na política em que a discussão no seio desta se reduz à economia e ao crescimento econômico não conseguindo pensar além do imediato, do momentâneo .

Crise nas religiões. Face os modernismos e as adaptações ao mundo atual as religiões orientais e ocidentais, enquanto sistemas unificados e mobilizadores de grupos e de sociedades, tornaram-se incapazes de julgar seus papéis antes unificados e universalistas, as igrejas cristãs incapazes de encontrar um ideal comum.

Crises do humanismo. Para Morin, há um processo de desintegração das identidades e da perspectiva humana. Na impossibilidade de realizar um humanismo que contemple a unidade na diversidade, o domínio afetivo, cognitivo, as individualidades grupais e sociais, como portadoras de toda a riqueza humana, motivando assim a crise nas sociedades globalizadas.

Crises do desenvolvimento. Movimentos de ocidentalização e globalização são motores das crises do mundo globalizado. O desenvolvimento tem produzido muitas benesses para a humanidade mas, tolhe a liberdade, os prazeres do homem. O desenvolvimento se constitui sinônimo de prosperidade para as classes médias ocidentais no entanto, o desenvolvimento também provocou mais miséria do que prosperidade assim, o desenvolvimento, segundo Morin, convive lado a lado com a miséria.

Crise da economia. O desenvolvimento, o bem estar e a democracia, se constituem os pilares da economia no entanto, a idéia de que a economia é o poder para resolver todos os problemas da sociedade enquanto um modelo unido que se aplica a todas as realidades e não vê as diversidades, esquece por suas vezes as especificidades das culturas.

Algumas proposições:

1. Devolver a consciência crítica sobre o desenvolvimento;

2. Entender a ciência, a técnica, a economia e o capitalismo como os motores da Nave Terra e que precisam ser repensados e questionados.

Para Morin, a globalização contém a contradição: a melhor e a pior coisa do mundo. A pior: o eixo de interdependência interplanetária no que concerne à história humana, unidas numa declaração de interdependência entre as nações. A definição de uma nação e uma pátria como comunidade do destino, uma pátria comum, os processos técno-econômicos tem criado um novo tipo de sociedade, possibilitando a visão de um planeta como local de comunicação imediata e integrada. Questões estas que devem ser consideradas em sua bi-polaridade.

3. A comunidade requer uma consciência comum, requer a necessidade de elaboração de um novo tipo de sociedade.

Morin pergunta: Por que estamos vivendo o melhor e o pior de todos os tempos?

Porque ao mesmo tempo em que viver se constitui num perigo a conjuntura oportuniza também a chance. Ao mesmo tempo em que anuncia a catástrofe, conduz à esperança. Trata-se de um sistema capaz de fazer uma metamorfose, uma transformação.

Partindo da reflexão com relação à metamorfose Morin, ressalta que a organização da vida é mais complexa que a organização de qualquer sistema. A capacidade de renovação, de oposição, de adaptação, de reparação e nutrição dos sistemas naturais se constitui em metamorfoses da natureza, mais complexos do que qualquer sistema mecânico, técnico ou social.

Ele ilustra ainda os resultados de metamorfoses históricas: o surgimento da agricultura, das artes, da organização nas sociedades privativas, apontam para os processos d e auto- organização das sociedades humanas sobre bases evolutivas.

Cita Fukuyama, declarando que a humanidade chegou ao final da história com uma economia representativa, impossibilitada de criar o novo. A referência à meta-história enquanto continuação desta é apontada por Morin como o caminho rumo a um novo tipo de sociedade.

Como mudar de vida?

Além de outras questões Morin, aponta a comunidade e a esperança como possibilidades rumo à reconstrução e a busca da harmonia, socialista, libertária, tal como a revolta dos adolescentes na década de 60, simbolizando uma a aspiração à ressurreição da esperança implantada no coração dos homens.

Comentário:

Apesar do sistema de som não estar ao nível do evento e pela dificuldade que tivemos para compreender o francês-português do Morin, penso que as reflexões propostas por ele foram muito significativas para pensar o momento de desgaste em que vive a sociedade contemporânea em todos os níveis, político, social, econômico, histórico, cultural, dentre outros.

Para mim, o ponto alto da palestra esteve na exposição sobre as crises e as justificativas apresentadas. A clareza, objetividade e capacidade para olhar o planeta como um todo e articular essas questões em seu discurso são memoráveis, dignas de Morin.

O olhar para a natureza como sistema auto-organizativo parece uma idéia interessante, Morin trabalha com esta questão no livro Terra Pátria. Num momento em que voltamos nosso olhar da fábrica para a natureza, e das ameaças à vida humana, por conta da exaustão das fontes e recursos naturais que estamos vivendo, parece ser uma perspectiva viável mudar o curso do nosso olhar e também de nossas ações.

No entanto, conversava com a Flavia no final e parece que tivemos a mesma percepção.O discurso da esperança se constitui um tanto messiânico, talvez nossa tradição crítica de origem marxista, que privilegia o exercício da dúvida e da objetividade cartesiana racionalista, nos impeça de olhar para os problemas e crises da contemporaneidade com esperança, tal como faz Morin.

Talvez nossa ênfase na técnica e nos modelos prontos e soluções empacotadas e adesivadas, vendidas nos supermercados do conhecimento, estejam anuviando nossa visão e impedindo de enxergar, junto com Morin, que precisamos ter esperança para vencer a crise. Mas eu tenho quer perguntar, esperança nos basta, resolve nosso problemas?

Preciso olhar a esperança como possibilidade para pensar os problemas da contemporaneidade.

Acabo de conversei rapidamente com Afrânio, ele não assistiu a palestra, fiz um relato e falei dos meus comentários (meus e da Flávia), ele perguntou: Será que ele não quer que nós possamos apresentar nossas contribuições para a discussão, será que ele não espera que pensemos planetariamente a busca de soluções com esperança?

Pois bem, quem quiser juntar-se a esta reflexão, sinta-se á vontade.