Em primeiro lugar, quero dizer que não sou torcedor do Flamengo, professo uma preferência pelo Bahia, muito mais pela tradição familiar do que por acompanhar o desempenho do time ou a sua colocação no campeonato nacional, fiquei sabendo que o atual treinador é um polémico ex-jogador de futebol nascido em Guaporé. Assim, acredito que esta ausência de simpatia/filiação me retira ou me insere numa linha de confronto perigosa, a paixão pelo futebol.
Mas o que me faz levantar da cama às quatro da manhã, não é a preocupação com o futebol, mas uma insônia que a cada dia insiste em me atormentar e ai, entre um livro e outro decido sentar á frente deste PC, talvez induzido por uma vaidade acadêmica que já existia e agora aguçada por este doutorado, me seduz a escrever talvez por necessidade/vontade/compulsão ou exercício, não sei, mas aqui estamos eu e você que talvez, consiga ler essas mal traçadas linhas.
Voltemos ao futebol, alguns fatos nos acompanharam nos últimos dias, ok. Não estou falando da saída prematura do Brasil da Copa do Mundo nem da Espanha que venceu a Holanda ontem e conquistou o tão cobiçado título mundial realizado no continente africano. Talvez aqueles que acompanham os noticiários, tanto os bizarros como os coloquiais, sabem do que estou falando, o sumiço de uma moça, o aparecimento de uma criança e a prisão de um determinado jogador de futebol.
Quero chamar a atenção para uma questão, na pesquisa acadêmica a não utilização do nome das pessoas envolvidas num fato, tem como finalidade preservar imparcialidade do pesquisador e a identidade dos pesquisados, aqui não utilizo os nomes porque os leitores estão grandemente informados pela mídia sobre o andamento do caso, mídia esta que diga-se de passagem, não poupa nomes nem apelidos.
Poderia seguir falando do papel e da atuação da mídia neste caso, mas talvez ela esteja cumprindo a sua função de impressionar pessoas como eu que passam a refletir sobre a intimidade, à partir das questões amplamente noticiadas.
Recordo-me de outros casos: o de um determinado casal acusado de atirar a filha/enteada do sexto andar de um prédio em São Paulo ou ainda, de uma adolescente assassinada após ser mantida em cativeiro por um ex-namorado, fatos estes acompanhados pelos brasileiros, em tempo real.
Voltemos à matéria dos últimos dias, o sumiço da moça, que tem como principal envolvido um esportista e seu amigo, que segundo última informação, cravou na pele votos de fidelidade ao jogador de futebol, personagem vivo, deste misterioso enredo. Personagem vivo? Sim. Pois infelizmente, a personagem desaparecida, não poderá contar sua versão dos fatos nem defender-se de ninguém, muito menos do olhar preconceituoso que ainda ronda a figura feminina, por aqui.
Contudo, o objeto da minha reflexão não é a mídia, talvez as questões feministas ou ainda a arrogância masculina, no entanto, quero chamar a atenção do leitor para o fato de outras tantas meninas desapareceram em nosso país, por tantos outros motivos mas que infelizmente não tiveram uma celebridade envolvida em seu desaparecimento e portanto, estão no anonimato, com suas famílias enlutadas clamando sozinhas por justiça pois não dispõem, nem dos recursos para custear um bom e experiente advogado muito menos para chamar a atenção de quem quer que seja.
Mas, o que me tirou da cama foi o fenômeno da intimidade. Sim, a intimidade que leva duas pessoas a se encontrarem, com hormônios e disposição para dar e vender, onde encontro e encanto se constituem questões muito amplas certamente dariam um tratado.
É certo que um encontro e um encanto, sejam com quem ou como aconteceu, rendeu talvez uma das experiências mais felizes que um homem e uma mulher podem experimentar, a geração de um novo ser quem, sem querer maculou o encanto. Certamente eles não imaginaram o desenrolar da história, sim, nenhum de nós diante do prazer e do encanto imagina, não é para imaginar, e serei redundante, o encanto existe para encantar.
Será a nossa incapacidade para lidar com o real e o imaginário, o público e o privado, o individual e o coletivo a ponto de não sabermos mais onde começam um e termina o outro? Se é que um dia esta cisão existiu. Arrisco dizer que ela não existe mais, que somos/estamos todos (generalização super hiper, mega, perigosa!), desprovidos dela, e recorrendo a um jargão televisivo estou a parafrasear “a intimidade não nos pertence mais”.
Quero dizer que a forma como os acontecimentos são tratados às vezes impedem o exercício do senso crítico, dificultando uma reflexão mais ampla sobre a(s) questão (ões), constituindo-se numa excelente oportunidade para nos perguntarmos sobre nós mesmos, sobre nossa postura diante do outro e sobre a banalização das relações humanas.
Nos interroga sobre mito e realidade, nos interroga sobre as neuroses do nosso tempo, nos interroga sobre crianças que não pediram para vir ao mundo, nos interroga sobre nossa postura provinciana e preconceituosa, nos interroga sobre a condição de miséria e pobreza em que vive nosso povo e sobre o sentido de impunidade que parece estar atrelado ao poder, à posição e ao dinheiro.
Essas intimidades tal como expostas nos chocam, mas também nos envergonham e nos desafiam a rever o rumo. Pergunta-se: mudar o treinador resolve? E para misturar, propositalmente alhos com bugalhos digo: as escolinhas de futebol estão ai alimentando o sonho de milhares de crianças e jovens com a fama e o dinheiro.
E a justiça para as Marias, Joanas e Luzias, desaparecidas? Enfim, o dia amanhece e clareia as trevas da noite parece que teremos um belo dia de sol no Rio, que nos alcance a lucidez para ler estes fatos para além das figuras do mocinho e do bandido ou do inocente e do culpado pois, eis ai mais uma exemplo de nossa itimidade desnuda e apresentada em tempo real!
Bom dia a todos e todas!
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