Cheguei atrasado na aula, neste momento o professor perguntava: Quem merece uma biografia? O aluno X, intervém e aponta para o capital como o elemento determinante do critério de legitimação e ou de reconhecimento histórico. Considerando as palavras de Nelson Rodrigues proferidas por Alberto: “O dinheiro compara até a honra”. Entendemos que a neutralidade da história está longe de se constituir numa realidade, concluímos que existem outras dimensões que interferem diretamente no registro daquilo e daqueles que passam compor a história.
O professor discutiu ainda o papel de Homero enquanto figura idealista, comprometido com a racionalidade e com a razão. As peripécias de Ulisses, narradas por Homero, contam a história de um semi-deus. Diante deste fato, Alberto faz alusão à crença no modo como os deuses interferem na história de vida dos humanos, onde o desenrolar dos fatos históricos são entendidos como sendo determinados pelo desígnio dos deuses.
Se a história é desígnio de Deus, não há nenhuma possibilidade de interferência humana ou de transformação da realidade pelos homens, cabe aos mesmos apenas aceitar seu desígnio e contentar-se com seu destino, previamente, esboçado pelas autoridades divinas.
Voltando a Homero, Alberto informa que ele utilizava a forma anedótica, forma esta que possui as seguintes características:
Começa de uma maneira;
Forma que se constitui numa estrutura que começa com uma lógica e vai para outra lógica;
Proporcionar ao homem o riso, elemento essencial para a constituição humana.
Alberto citou ainda o filme “O Nome da Rosa”, baseado no romance homônimo de Humberto Eco onde a trama gira em torno de determinados livros proibidos pelo Vaticano por conterem um estudo de Aristóteles sobre o riso. Voltando a Homero, o professor reforçou que, o viés idealista de Homero remete ao fato de que a racionalidade fundada em tais premissas não considera os exemplos empíricos como possíveis.
Retornando à discussão sobre a biografia, afirmou que ela está fundada na forma anedótica, sendo ela, por alegoria, um pré-ex-voto. Para justificara este argumento, ressaltou que toda narrativa começa na infância, momento em que já se verificam habilidades especiais no sujeito biografado. Reiterou que a biografia se constitui num privilégio de uma determinada classe detentora de poder e cuja história, que não é a história dos mortais e das pessoas comuns, merece ser contada e perpetuada, tal como as diversas formas da tragédia grega, que tem em Sófocles um de seus expoentes, alusivas às histórias dos personagens da elite “consumidora” da época.
Dando continuidade à suas reflexões, Alberto destacou que a história tem um caráter teleológico, onde o final é que explica os fatos anteriores. Curioso acerca do significado da teleologia, fui ao Abbagnano e descobri algumas coisas interessantes que quero relatar:
Suas origens remontam a Aristóteles que defendia o conceito de que as coisas servem a um propósito;
Aristóteles defendia a teleologia como o estudo dos fins últimos da sociedade da humanidade e da natureza;
Na Idade Média, mais especificamente no Concílio de Nicea no século IV o termo ganhou a acepção tal como a conhecemos hoje, onde a explicação por meio das causas finais passou a se constituir na única convincente e aceita.
A partir destas considerações pergunta-se:
O homem tem competência para interferir na história?
Eu tenho controle sobre a história?
No bojo destas reflexões, Alberto com seu jeito jocoso e ao mesmo tempo provocador, nos leva a questionar: não podemos fundamentar a concepção naturalizada de que a história acontece fora do homem, ela é externa ao homem, independente dele e sobre fatos que ele não tem controle?
Fazer opção por uma resposta simplista é dizer, não e inverter a maneira de pensar: a história é socialmente construída, a identidade dos homens é tecida no interior das relações que se estabelecem no conjunto da sociedade, no contato com o outro e com os outros, sendo assim, tanto as histórias individuais como as histórias coletivas se constituem num amálgama rico, prenhe e imprevisível, passível de intervenção e de transformação por todos aqueles que compõem o social.
Alberto, conclui chamando nossa atenção para o fato de que, no século XIX, existia uma atividade para a qual se deu um nome: design. Realça o pensamento, ou senso comum sobre o profissional desta área: se design nasce design, se artista nasce artista, as escolas de formação deveriam ser fechadas, diz ele. Alberto fala isto á partir da sua experiência, da sua história de vida partilhada conosco na sala de aula.
Antes de sair, discute a última questão à partir da intervenção de uma colega de sala: O que é opinião e o que é conhecimento? Opinião é juízo é contingente é a “doxa” e conhecimento é saber, é essência, é o essencial é “physis”. Vou novamente ao Abbagnano e ele me diz: "doxa” é uma palavra grega que significa crença comum na opinião popular logo, é o senso comum, não é à toa que os sofistas manipulavam a opinião para enganar as pessoas. Mas, “physis” refere-se á natureza e á realidade em movimento e em franco processo de transformação, sem a influência externa.