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sábado, 3 de outubro de 2009

Michel Maffesoli anotações da Conferência


Conferência I Michel Mafessoli I 02.10.2009 I IAG I PUC-Rio

O Retorno do Sagrado

Michel Maffesoli, tomou os sistemas do sagrado como o ponto de partida para a discussão. Segundo ele uma fórmula que nos interessa para a cultura grega neolatina, esta relacionada com a “gênese e declínio” como os elementos constantes da vida. Ele ressaltou como a classe intelectual tem uma desconfiança no tocante à vida cotidiana.
As imposições da vida pesam sobre o homem e apesar disto, vivemos “o levar a sério a vida”. Segundo ele, não se está falando em aniquilar ou em destruir a razão mas, na inclusão da razão sensível que comporta não apenas o “ou/ou” e sim o “e/e”. Diante da impossibilidade de uma sensibilidade teórica numa perspectiva de enriquecimento do ser.

Para o pensador, estamos no começo de uma nova ética, diferente da ética relacionada com a moral. Trata-se de uma ética pensada sobre o ponto de vista daquela ética grega, que relaciona o termo ao modo de ser, ao caráter, em suma, uma síntese dos costumes de um povo, diferentemente do conceito de moral restritiva, redutível.
Nesta ótica Maffesoli, apontou para a principal função do intelectual: a provocação, a capacidade de provocar e fazer pensar. Indicou ainda a necessidade de encontrar palavras que estejam em harmonia com o que entendemos e vivemos atualmente, uma vez que há uma carência, segundo ele, de verbetes que traduzam as formas de pensar e de agir contemporâneos.

Neste sentido, dirigiu a discussão para a responsabilidade de resgatar o debate e a troca como princípios fundadores da universidade. A transversalidade do conhecimento e do saber, foi citada pelo pensador como um caminho possível, na contra-mão de um saber baseado no dogma que não pode ter a pretensão de ser a única possibilidade de interpretação do real.

Ressaltou ainda que, como pesquisadores, nós preferimos as afirmações dogmáticas e positivistas, marxistas, freudianas, positivistas, dentre outras. Para ele, precisamos colocar tudo isto em questão, “esta é a grande urgência da universidade”, declara Maffesoli.

Na perspectiva do resgate e da necessidade de novas formas de compreensão do real, o pensador requisita as teorias do imaginário de Gilbert Durand. Maffesoli considera que, se levarmos a sério o imaginário, poderíamos entender melhor o cenário das novas tecnologias da comunicação e informação que, segundo ele, estão todos baseados nas interconexões do imaginário.

Ao requisitar o imaginário como categoria para pensar o momento presente, Maffesoli ressalta que o cotidiano, o dia a dia, a vida das pessoas onde elas estão, precisa ser pensada de forma localizada. O cotidiano, segundo ele, precisa ser pensado como estando acima e não abaixo da experiência. Experimentar a vida, a permanência, a continuidade, a integração a alteridade do outro (natureza, indivíduo e grupo).

Sobre esta questão Maffesoli fez referência a Heidegger e sua idéia da acerca da simplicidade do cotidiano, o retorno às coisas simples, os chás, as plantas medicinais, as ervas e “tudo aquilo que cuidada de nós”. Na confluência desta cotidianidade estão os mitos as fábulas, os delírios, as mitologias e fantasmagorias de uma sabedoria secreta, questões estas que o pensador, apoiado em Baudrillard, afirmou que precisam ser conhecidas para que possamos entender a vida moderna, para além de uma perspectiva crítica, numa busca dos pensamentos nas raízes. “Não sou apenas eu que penso mas, isto pensa através de mim e de certa forma eu sou o alto-falante, eu sou o retorno de alguma coisa”.

Maffesoli, ao ingressar no campo mítico e mágico, pergunta: como olhar o sagrado sob uma perspectiva pós-moderna? O pensador entende que para responder tal pergunta faz-se necessário desenvolver uma sensibilidade teórica que acompanhe o vivido para além do sentimento de unidade, enquanto categoria teórica da modernidade, que começa com Santo Agostinho que dizia: “a razão humana conduz à unidade” instituindo assim o monoteísmo como única tradição possível no campo do sagrado.

Tudo foi reduzido à unidade. Comte, em seus postulados, também buscou e trabalhou a idéia de unidade. A idéia de redução unitária em detrimento da polissemia se funda na organização racional da sociedade. Neste aspecto, a teologia no século XVIII vai levar-nos à teodicéia, à uma racionalização do sagrado.

Weber, na obra, A Lógica Protestante e o Espírito do Capitalismo, define o que viria a ser a sociedade moderna diante da perspectiva de sua capitalização e psicanalização no conjunto da vida social. Esta desmagificação do mundo, segundo Maffesoli, conduz ao seu desencantamento e à percepção do racionalismo como sistema hegemônico.

Analisando as relação da sociedade contemporânea com o imaginário, Maffesoli, parte das idéias de Gilbert Durand, para dizer que a questão iconoclasta eliminou o ícone, quebrou a imagem. O iconoclasmo quebrou os ícones femininos ocultos nos lugares altos do Mediterrâneo, anulou a possibilidade do sagrado pelas vias da imagem, do ícone e por extensão, do mito.

Na visão do pensador, o que é próprio da imagem é o despertar da histeria, defende a idéia de que na imagem, existe algo que faz reagir o centro e as entranhas e não apenas o cérebro. A questão iconoclasta está fundada no rompimento com a imagem pois, ela solicita o homem em sua inteireza, surge então a necessidade de romper com ela, o que não se constitui numa ação neutra.

Ilustrando esta questão Maffesoli recorre àquilo que ele denomina de épisteme de Michael Foucault, para quem as formas de representação vão adquirir um sentido importante na construção de uma compreensão sobre a psique humana, e como conseqüência desses elementos busca, os caracteres individuais e essenciais de uma época através dos registros e pegadas deixados por aqueles que viveram aquele momento singular.

Para onde vamos?

A idéia de saturação e superação é discutida por Maffesoli. Para ele nossa maneira habitual de colocar os problemas consideram que as fantasias do “nada” (da criação) ao “nada” (o fim do mundo), conduziram à uma consciência de que algo tende a cessar. No entanto, a reconstrução de outra maneira de pensar, e a inversão das polaridades, do fim ao começo, podem se constituir oportunas para viver a o momento presente.

“o mundo é mundo” (Santo Agostinho)
“a infâmia da existência” (Luckacs)
“o intelectual é o cavalheiro da raiva” (Freud)

Essas frases, na concepção de Maffesoli, apontam para o fato de que, permanecemos numa postura crítica que vai rejeitar o que deve ser rejeitado, preservando uma tradição judicativa e normativa do real, entre aquilo que é legal (onde consideramos que estamos) e o que é real (o cotidiano). Tal perspectiva deve conduzir à uma investigação séria das fantasias, dos mitos, dos contos e lendas que permeiam o imaginário social.

Maffesoli dirige-se aqui para a necessidade uma Ecosofia, compreendida como sabedoria, como a casa de todos. Para ele, não podemos compreender a civilização sem compreender o outro (da natureza, do mundo, da sociedade), sem reduzir o outro ao mesmo como na perspectiva Comtiana num ajustamento do outro que se torna eu mesmo. O outro permanece o outro, e a questão que se coloca é como ajustar essas pequenas alteridades umas às outras o que fez Maffesoli perguntar com Heidegger: como passamos de um ser infinito a um ser nominal?.

Vivemos numa crise de sentidos diz ele, onde toda intenção que não foi pensada é louca, o que se está querendo quebrar é esta noção, de que as coisas podem ter sentido sem ter finalidade. Nossa forma de pensar o mundo sempre esteve relacionada com a expressão, com a dominação esquemática, masculina, do estado de projeção para frente e para o futuro, no sentido da exaculação, o real com sentido de finalidade.

O ideal, por sua vez, se constituiria no retorno à vagina, ao centro, ao útero, ao oco, ao buraco, através de uma ecosofia não mais centrada numa energia que se projeta para longe mas algo que nos falta, volta-se para o aqui e o agora, que leva à sério o local e o mundo onde estamos. Local de existência de um microcosmo onde está o indivíduo e um macrocosmo social, entre esses dois extremos. Maffesoli identifica o mesocosmo que, segundo ele, se constitui no elo, na religação e na realiança.

O imaginário para Maffesoli, não é redutível à imagem, enquanto uma coisa mental, remetendo a Da Vinci. Ele antevê a possibilidade de um materialismo espiritual e místico, uma remagnificação do mundo, através dos meios de comunicação interativa, aquilo que vai me religar com o microcosmo. Por outro lado, observa-se uma volta ao místico mesmo na política, ao mistério, àquilo que une os iniciados entre si: mistério, mítica, mítico, mundo, o mistério o mito que dividimos entre nós.

Não estamos mais no mito do progresso é necessário entender o pregressismo e o pensamento pregressita onde, aquilo que não é progressista soa como reacionário. Em vez de pensar em regressão ou voltar ao anterior ou à regressão, que não é regressão, seria o ingresso num pensamento e numa energia que é aqui, que traduz o espírito do tempo, estamos aqui num lugar que precisa assentar-se no outro, na natureza e numa relação de alteridade entre ambos.

Corroborando com este pensamento, Maffesoli, recorre á Gilles Deleuze para quem, não somos de um mesmo sexo, de uma mesma relação e de um mesmo local mas, para compreender esta assertiva, “precisamos tomar a sério as dobras que regulam a sociedade”. Sinergias do arcaico estão presentes no desenvolvimento da tecnologia, a aplicação dos momentos da tecnologia como forma de realização de nossos delírios imaginários.

Nesta perspectiva, encarar as tecnologias e criações humanas apenas sob a ótica lógica enquanto tese, antítese e síntese, nos conduziu apenas à identificação do “mal” como forma de chegar à perfeição e a uma sociedade perfeita. A música, as artes de um modo geral, o cinema, o entretenimento, não são mais a busca da perfeição mas, ajustar-se a isto integrar-se a isto, às singularidade. A humildade do humano e o reconhecimento dos limites através da humildade, se constitui numa atitude dialética de adaptação a este novo mundo.

Por fim, o pensador concluiu afirmando a necessidade de uma ultrapassagem à idéia da retomada e de retorno ao arcaico, “pode parecer uma distorção do mundo tal como o conhecemos, tratam-se de processos complexos que não se completam”. Para tanto, Maffesoli, nos convidou e nos convida a entender o sagrado através da imagem de uma espiral, o sagrado irredutível à unidade, à mística, isto está vinculado, de certa maneira, à idéia de sabedoria secreta. A busca por uma epifanização.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Historia do Design - Aula 2

Cheguei atrasado na aula, neste momento o professor perguntava: Quem merece uma biografia? O aluno X, intervém e aponta para o capital como o elemento determinante do critério de legitimação e ou de reconhecimento histórico. Considerando as palavras de Nelson Rodrigues proferidas por Alberto: “O dinheiro compara até a honra”. Entendemos que a neutralidade da história está longe de se constituir numa realidade, concluímos que existem outras dimensões que interferem diretamente no registro daquilo e daqueles que passam compor a história.

O professor discutiu ainda o papel de Homero enquanto figura idealista, comprometido com a racionalidade e com a razão. As peripécias de Ulisses, narradas por Homero, contam a história de um semi-deus. Diante deste fato, Alberto faz alusão à crença no modo como os deuses interferem na história de vida dos humanos, onde o desenrolar dos fatos históricos são entendidos como sendo determinados pelo desígnio dos deuses.

Se a história é desígnio de Deus, não há nenhuma possibilidade de interferência humana ou de transformação da realidade pelos homens, cabe aos mesmos apenas aceitar seu desígnio e contentar-se com seu destino, previamente, esboçado pelas autoridades divinas.

Voltando a Homero, Alberto informa que ele utilizava a forma anedótica, forma esta que possui as seguintes características:

Começa de uma maneira;

Forma que se constitui numa estrutura que começa com uma lógica e vai para outra lógica;

Proporcionar ao homem o riso, elemento essencial para a constituição humana.

Alberto citou ainda o filme “O Nome da Rosa”, baseado no romance homônimo de Humberto Eco onde a trama gira em torno de determinados livros proibidos pelo Vaticano por conterem um estudo de Aristóteles sobre o riso. Voltando a Homero, o professor reforçou que, o viés idealista de Homero remete ao fato de que a racionalidade fundada em tais premissas não considera os exemplos empíricos como possíveis.

Retornando à discussão sobre a biografia, afirmou que ela está fundada na forma anedótica, sendo ela, por alegoria, um pré-ex-voto. Para justificara este argumento, ressaltou que toda narrativa começa na infância, momento em que já se verificam habilidades especiais no sujeito biografado. Reiterou que a biografia se constitui num privilégio de uma determinada classe detentora de poder e cuja história, que não é a história dos mortais e das pessoas comuns, merece ser contada e perpetuada, tal como as diversas formas da tragédia grega, que tem em Sófocles um de seus expoentes, alusivas às histórias dos personagens da elite “consumidora” da época.

Dando continuidade à suas reflexões, Alberto destacou que a história tem um caráter teleológico, onde o final é que explica os fatos anteriores. Curioso acerca do significado da teleologia, fui ao Abbagnano e descobri algumas coisas interessantes que quero relatar:

Suas origens remontam a Aristóteles que defendia o conceito de que as coisas servem a um propósito;

Aristóteles defendia a teleologia como o estudo dos fins últimos da sociedade da humanidade e da natureza;

Na Idade Média, mais especificamente no Concílio de Nicea no século IV o termo ganhou a acepção tal como a conhecemos hoje, onde a explicação por meio das causas finais passou a se constituir na única convincente e aceita.

A partir destas considerações pergunta-se:

O homem tem competência para interferir na história?

Eu tenho controle sobre a história?

No bojo destas reflexões, Alberto com seu jeito jocoso e ao mesmo tempo provocador, nos leva a questionar: não podemos fundamentar a concepção naturalizada de que a história acontece fora do homem, ela é externa ao homem, independente dele e sobre fatos que ele não tem controle?

Fazer opção por uma resposta simplista é dizer, não e inverter a maneira de pensar: a história é socialmente construída, a identidade dos homens é tecida no interior das relações que se estabelecem no conjunto da sociedade, no contato com o outro e com os outros, sendo assim, tanto as histórias individuais como as histórias coletivas se constituem num amálgama rico, prenhe e imprevisível, passível de intervenção e de transformação por todos aqueles que compõem o social.

Alberto, conclui chamando nossa atenção para o fato de que, no século XIX, existia uma atividade para a qual se deu um nome: design. Realça o pensamento, ou senso comum sobre o profissional desta área: se design nasce design, se artista nasce artista, as escolas de formação deveriam ser fechadas, diz ele. Alberto fala isto á partir da sua experiência, da sua história de vida partilhada conosco na sala de aula.

Antes de sair, discute a última questão à partir da intervenção de uma colega de sala: O que é opinião e o que é conhecimento? Opinião é juízo é contingente é a “doxa” e conhecimento é saber, é essência, é o essencial é “physis”. Vou novamente ao Abbagnano e ele me diz: "doxa” é uma palavra grega que significa crença comum na opinião popular logo, é o senso comum, não é à toa que os sofistas manipulavam a opinião para enganar as pessoas. Mas, physis” refere-se á natureza e á realidade em movimento e em franco processo de transformação, sem a influência externa.