“... "Abaixo o analfabetismo..."
(Major Cosme de Farias, advogado dos pobres)
No bairro Cosme de Farias onde nasci, esta localizada a saudosa Escola Lelis Piedade, ali iniciei meus estudos primários com a Profa. Adelaide. Quando “passei” para a 5ª. Série, vivenciei uma série de mudanças, a passagem da vida juvenil para a adolescência chegava com seus confrontos e conflitos. Cursei o 2º Grau no Colégio Luiz Vianna, longe de casa, caminhava 45 (quarenta e cinco minutos) para chegar até a escola, no verão muito suor e no inverno às vezes molhado. Iniciei estudando à tarde mas, aos 15 (quinze anos) precisava trabalhar para contribuir com o meu próprio sustento uma família de 4 (cinco) irmãos.
Assim, começa minha vida acadêmica, os livros sempre foram meus companheiros, até mais que os irmãos e amigos da vizinhança. Os netos de D. Marieta não podiam brincar na rua, sendo assim, o jeito era brincar de escola com os irmãos eu, como o mais velho, era o professor e disso sempre me orgulhei, era isto que eu queria: ser professor.
Após várias tentativas em faculdades públicas sem obter êxito, iniciei os estudos de graduação no curso de Licenciatura em Música na Universidade Católica do Salvador, no ano de 1989. Àquela época já havia aprendido a tocar piano por influência da igreja evangélica que passei a freqüentar aos 16 anos. Era o único negro em minha classe e aquilo ainda me causava estranhamento.
Nos primeiros meses ainda me sentia um peixe fora d’água e me perguntava se deveria realmente estar ali, mas isto logo passou, confesso que levou algum tempo. Depois que apresentei um trabalho oral, sozinho, na disciplina Teologia do saudoso Padre Rubens, todos queriam conversar comigo e convidavam-me para participar dos grupos de estudo e trabalhos em equipe.
A partir de então, uma série de descobertas acadêmicas se sucederam: os primeiros autores, os primeiros teóricos, as dificuldades dos primeiros semestres, os trabalhos complicados, as palavras difíceis, os aspectos técnicos de um curso na área de Artes enfim. Logo fui convidado para trabalhar na escola da igreja, chegou a hora do exercício da docência no ensino fundamental.
Nos primeiros anos, esta atividade se constituiu por demais desafiadora, face à inexperiência profissional e a percepção acerca da incompatibilidade entre os conteúdos estudados no curso de graduação e aqueles requisitados no exercício da docência. Neste processo, fui me percebendo docente e aprendendo a ser professor. Aprendendo com meus pares e com os próprios alunos, tal como declara Tardiff (1991).
Na academia, os contatos com as disciplinas e os conhecimentos dela advindos, favoreciam a emergência de muitas questões, dentre elas: o descompasso entre teoria e prática, a negação aos alunos de oportunidades de aprendizado significativas e relacionadas com sua vivência, o ocultamento das especificidades culturais (gênero, classe social, etnia, religião), questões estas que me causavam angústia e para as quais não tinha resposta.
Esta realidade era evidente, tanto na escola de ensino fundamental, como na faculdade, então me perguntava: Onde estará Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido, e Edgard Willems, pedagogo musical que defendia a necessidade de “unir continuamente o ritmo à vida” (Wilhems, In Rocha, 1990). No entanto, as respostas para tais questões, longe de serem desmotivadoras, acabavam se constituindo num desafio.
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