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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

4. Cultura, educação e sinestesia



Consciente de que a educação é um fenômeno complexo, multifacetado e inacabado, conforme atesta Morin (1999), candidatei-me ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas e fui aceito na área de concentração: Educação e Antropologia. Tive a feliz oportunidade de ser orientado pelo competente e paciente Prof. Dr. Carlos Gulhermo Rojas Niño que, conduziu-me a um aprofundamento maior referente às relações entre cultura, arte, educação e antropologia.

O meu horizonte teórico se ampliou sobremaneira, conheci a teoria da Complexidade defendida por Edgar Morin. As questões expostas no Método 5 – A humanidade da humanidade, tornaram-se naquele momento, basilares para o embasamento teórico da maioria das minhas publicações, bem como da dissertação de mestrado.

Durante o processo de modelagem da dissertação nasce Pedro Alexandre, meu filho, a chegada daquele que herdará meus livros, deu novo sentido à minha vida, contribuindo para a ressignificação de uma série de paradigmas. Modificou relações e influiu no meu olhar sobre a vida, o homem e o mundo. Interessante observar como a complementaridade é inerente à natureza como um todo e lembro-me de Merleu-Ponty que, citando Stein, afirma: “a experiência sensível é um processo vital, assim como a procriação, a respiração ou o crescimento” (Merleau-Ponty, 1999 p. 31).

O discurso da integração entre os sentidos humanos, evocados pela sinestesia, se apresentou como uma possibilidade de concretização, na prática, das premissas que vinha discutindo no campo teórico, a saber, a possibilidade de processos integrados de conhecimento em contraposição à fragmentada racionalidade positivista. Defendi a dissertação em 2002 com o título: A sinestesia na relação educação e cultura, um olhar sobre a disciplina expressão cultural e educação no curso de Pedagogia da FACED-UFAM.

O título de mestre não se constitui apenas, uma condecoração ou a ascensão de um lugar diferenciado no círculo acadêmico. Sempre considerei que o manejo do conhecimento se constitui numa ação para a vida, e todo aquele comprometido com este ofício, precisa pensar nas contribuições que o saber pode trazer às pessoas, inclusive à minha. Uma série de rupturas ocorreram neste momento, pois, “leva-se muito tempo para ser jovem” e um outro tempo para ficar maduro. Afastei-me da igreja e em seguida, o divórcio. Assim como os vasos comunicantes, “(...) os sentidos comunicam-se entre si e abrem-se à estrutura da coisa” (Merleau-Ponty, 1999 p. 308.

A Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty, bem como a hermenêutica de Gadamer e Paul Ricouer ampliaram o meu olhar sobre as questões relativas à interpretação e significação, o contato com a semiótica de Charles Sanders Pierce, também contribuiu para o aprimoramento deste processo de compreensão do real.

As descobertas no campo da sinestesia, também se apresentaram como um grande achado teórico, que veio confirmar a percepção e os investimentos anteriores. Nos caminhos e descaminhos, tive a feliz oportunidade de sair do Brasil, participei de um congresso de Design na Universidade de Palermo em Buenos Aires. Em nossas andanças pelas livrarias da Rua Córdoba, ressalto que estava acompanhado da Francimar. Ali, me deparei com um livro do David Le Breton, um não, dois. Nesta noite não dormi, devorei o livro, descobri a Antropologia dos Sentidos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

3. Da beira do mar para a beira do rio


No ano de 1995 cursei a disciplina Arte e Educação na qualidade de aluno especial no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFBA com o Prof. Sergio Farias. O contato com obras tais como: A Educação pela Arte de Herbert Read, As Educação Estética do Homem de Schiller, Teoria Estética de Adorno ou ainda Fundamentos Estéticos da Educação de João Francisco Duarte Jr.; ampliaram meus horizontes teóricos e tiveram influência direta sobre a prática em sala de aula, questão esta que só percebi algum tempo depois, quando fui homenageado pela turma de formandos do ensino médio por dois anos consecutivos.

Passei a utilizar métodos pouco convencionais e me percebia tentando trazer para a sala de aula, novos elementos que oportunizassem, àqueles rapazes e moças em formação, experiências mais significativas no campo do Ensino de Artes. Isto se estendia com os meus alunos de Piano, nas turmas de Musicalização Infantil no Colégio Adventista de Salvador ou no contato com os participantes do Coral da Igreja. Importante observar que, foi nesta época que realizei, junto com outros docentes idealistas e aventureiros como eu, na Escola Adventista de Liberdade, as primeiras experiências de caráter interdisciplinar no âmbito escolar.

No ano de 1998 fui convidado para dirigir um Conservatório Musical na cidade de Rio Preto da Eva, interior do Amazonas, distante 80 km da capital, Manaus. Aceitei o desafio, tive que abrir mão do mar, mas a floresta se mostrou muito acolhedora e o rio caudaloso, com sua tranqüilidade e impetuosidade velada, convidam-nos a pensar e re-pensar. Novas experiências no âmbito profissional, bem como a oportunidade de vivenciar uma nova cultura, se descortinaram diante de meus olhos.

No mesmo ano ingressei na Universidade Federal do Amazonas como professor substituto neste momento, me percebi responsável pela formação de novos docentes nas áreas de Música, Artes Plásticas e Pedagogia. Percebia novamente que seriam necessários novos investimentos em formação. Ir em busca de maior aprofundamento era um pensamento constante. É desta época a primeira publicação em periódico: “A educação musical no processo de educação integral”.

Neste ínterim, comecei a navegar pelos rios do Amazonas, conheci algumas cidades interioranas. As diferenças culturais se apresentavam de forma mais intensa, o contato com o homem ribeirinho e as comunidades indígenas se apresentaram como cenários culturais desafiadores à compreensão da identidade baseada na diferença, foi então que reconheci, à partir do contato com o outro a minha identidade negra e baiana.

A ação docente quer na capital ou no interior, tinha que ser ressignificada, não podia impor meus padrões de conhecimento e negligenciar os saberes locais, tradicionais e até milenares dos sujeitos com os quais estava entrando em contato. A minha ação, neste contexto, precisava produzir o diálogo, o conhecimento conjunto, a troca e a abertura para a interação com este outro diferente que requisitava minha atenção.

Foi neste momento que me encontrei de fato e de direito com a Antropologia Cultural. Clifford Geertz, Ralph Linton, Gilbert Duran, Bronislaw Malinowski e Leandro Tocantis (destaque para uma obra esplêndida deste autor, O Rio Comanda a Vida), começaram a fazer parte das minhas leituras. Muitos dos autores que li possuíam concepções teóricas diferenciadas, algumas até contraditórias mas, precisava relacionar-me melhor com este novo cenário.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

2. É preciso aprofundar



Ao concluir o curso de graduação em 1992, ainda não me sentia preparado para o exercício da docência, conseguia identificar uma série de ganhos, no entanto, percebia a necessidade de cavar mais fundo, a base teórica fornecida pela formação de graduação no que respeita à área de educação, se mostrou frágil frente aos desafios do “ser professor”. A ênfase tecnicista evidenciada no currículo do curso de licenciatura, só consegui entender quando ingressei no curso de Especialização em Metodologia do Ensino Superior da FEBA – Faculdade de Educação da Bahia.

O curso supra mencionado, apesar de se mostrar aligeirado, permitiu uma reflexão mais aprofundada sobre as ciências da educação e os processos de ensino e aprendizagem que lhe são inerentes. Ao ingressar no curso, juntamente com a saudosa colega de trabalho e amiga da adolescência Adorice Pires, não entendia muito bem a nomenclatura, nem o campo de atuação, mas o currículo me encantou, era tudo que estava procurando: Filosofia da Educação, Educação e Sociedade, Avaliação Educacional esta disciplina ministrada por Cipriano Luckesi, dentre outras, instigantes e desafiadoras.

As leituras e debates eram enriquecedores e foi Sergio Paulo Rouanet (1987) em “As Razões do Iluminismo” que proporcionou uma reflexão questionadora sobre a necessidade de rupturas com o paradigma de cientificidade vigentes e a possibilidade de inserção no discurso científico e por extensão, no didático-pedagógico, das questões referentes ao lúdico, à emoção, o sentimento; os domínios sensórios enquanto construtores do todo que é o ser humano.

Naquele momento fui convidado para ministrar aulas no ensino médio pelo Prof. Moacir Brum e aceitei o desafio, minha cabeça estava fervilhando de idéias e esta oportunidade se configurava como ascensão profissional, reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nos anos anteriores e a oportunidade de interagir com adolescentes, isto me fascinava.

Década de 90, as escolas da rede particular estavam encantadas com a teoria da Qualidade Total. Eu, como docente, sofri pressões para obedecer cegamente, aos princípios de Deming, e assim fiz. Esta corrente empresarial, transferida para o campo da educação, foi capitaneada no Brasil por Cosete Ramos dentre outros partidários. Foi então que resolvi dar uma resposta: efetuei uma revisão de literatura sobre esta questão como trabalho de conclusão de curso da especialização.
Começava a entender que as batalhas não são travadas apenas no âmbito da prática mas, também, no campo teórico e conceitual. Percebi que escrever seria uma maneira de não me violentar diante das questões impostas e que a escrita se constituía numa arma para vencer a ignorância.

Após a conclusão do curso de especialização em 1994, dediquei-me integralmente à docência, passei a pesquisar e produzir material didático para as aulas de Artes e Educação Musical. Impulsionado pelo contato com autores como Olga Reverbel, Ana Mae Barbosa, Olga Metting, Therezinha Requião, Alda Oliveira, Alfredo Bosi e Ernest Fischer. Criava jogos didáticos para as mais diferentes situações na sala de aula, alguns não resistiram à primeira aula, outros foram usados por muito tempo, alguns poucos, utilizo-os até hoje no ensino superior.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

1. Primeiros passos: a academia


“... "Abaixo o analfabetismo..."
(Major Cosme de Farias, advogado dos pobres)

No bairro Cosme de Farias onde nasci, esta localizada a saudosa Escola Lelis Piedade, ali iniciei meus estudos primários com a Profa. Adelaide. Quando “passei” para a 5ª. Série, vivenciei uma série de mudanças, a passagem da vida juvenil para a adolescência chegava com seus confrontos e conflitos. Cursei o 2º Grau no Colégio Luiz Vianna, longe de casa, caminhava 45 (quarenta e cinco minutos) para chegar até a escola, no verão muito suor e no inverno às vezes molhado. Iniciei estudando à tarde mas, aos 15 (quinze anos) precisava trabalhar para contribuir com o meu próprio sustento uma família de 4 (cinco) irmãos.

Assim, começa minha vida acadêmica, os livros sempre foram meus companheiros, até mais que os irmãos e amigos da vizinhança. Os netos de D. Marieta não podiam brincar na rua, sendo assim, o jeito era brincar de escola com os irmãos eu, como o mais velho, era o professor e disso sempre me orgulhei, era isto que eu queria: ser professor.

Após várias tentativas em faculdades públicas sem obter êxito, iniciei os estudos de graduação no curso de Licenciatura em Música na Universidade Católica do Salvador, no ano de 1989. Àquela época já havia aprendido a tocar piano por influência da igreja evangélica que passei a freqüentar aos 16 anos. Era o único negro em minha classe e aquilo ainda me causava estranhamento.

Nos primeiros meses ainda me sentia um peixe fora d’água e me perguntava se deveria realmente estar ali, mas isto logo passou, confesso que levou algum tempo. Depois que apresentei um trabalho oral, sozinho, na disciplina Teologia do saudoso Padre Rubens, todos queriam conversar comigo e convidavam-me para participar dos grupos de estudo e trabalhos em equipe.

A partir de então, uma série de descobertas acadêmicas se sucederam: os primeiros autores, os primeiros teóricos, as dificuldades dos primeiros semestres, os trabalhos complicados, as palavras difíceis, os aspectos técnicos de um curso na área de Artes enfim. Logo fui convidado para trabalhar na escola da igreja, chegou a hora do exercício da docência no ensino fundamental.

Nos primeiros anos, esta atividade se constituiu por demais desafiadora, face à inexperiência profissional e a percepção acerca da incompatibilidade entre os conteúdos estudados no curso de graduação e aqueles requisitados no exercício da docência. Neste processo, fui me percebendo docente e aprendendo a ser professor. Aprendendo com meus pares e com os próprios alunos, tal como declara Tardiff (1991).

Na academia, os contatos com as disciplinas e os conhecimentos dela advindos, favoreciam a emergência de muitas questões, dentre elas: o descompasso entre teoria e prática, a negação aos alunos de oportunidades de aprendizado significativas e relacionadas com sua vivência, o ocultamento das especificidades culturais (gênero, classe social, etnia, religião), questões estas que me causavam angústia e para as quais não tinha resposta.

Esta realidade era evidente, tanto na escola de ensino fundamental, como na faculdade, então me perguntava: Onde estará Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido, e Edgard Willems, pedagogo musical que defendia a necessidade de “unir continuamente o ritmo à vida” (Wilhems, In Rocha, 1990). No entanto, as respostas para tais questões, longe de serem desmotivadoras, acabavam se constituindo num desafio.