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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

4. Cultura, educação e sinestesia



Consciente de que a educação é um fenômeno complexo, multifacetado e inacabado, conforme atesta Morin (1999), candidatei-me ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas e fui aceito na área de concentração: Educação e Antropologia. Tive a feliz oportunidade de ser orientado pelo competente e paciente Prof. Dr. Carlos Gulhermo Rojas Niño que, conduziu-me a um aprofundamento maior referente às relações entre cultura, arte, educação e antropologia.

O meu horizonte teórico se ampliou sobremaneira, conheci a teoria da Complexidade defendida por Edgar Morin. As questões expostas no Método 5 – A humanidade da humanidade, tornaram-se naquele momento, basilares para o embasamento teórico da maioria das minhas publicações, bem como da dissertação de mestrado.

Durante o processo de modelagem da dissertação nasce Pedro Alexandre, meu filho, a chegada daquele que herdará meus livros, deu novo sentido à minha vida, contribuindo para a ressignificação de uma série de paradigmas. Modificou relações e influiu no meu olhar sobre a vida, o homem e o mundo. Interessante observar como a complementaridade é inerente à natureza como um todo e lembro-me de Merleu-Ponty que, citando Stein, afirma: “a experiência sensível é um processo vital, assim como a procriação, a respiração ou o crescimento” (Merleau-Ponty, 1999 p. 31).

O discurso da integração entre os sentidos humanos, evocados pela sinestesia, se apresentou como uma possibilidade de concretização, na prática, das premissas que vinha discutindo no campo teórico, a saber, a possibilidade de processos integrados de conhecimento em contraposição à fragmentada racionalidade positivista. Defendi a dissertação em 2002 com o título: A sinestesia na relação educação e cultura, um olhar sobre a disciplina expressão cultural e educação no curso de Pedagogia da FACED-UFAM.

O título de mestre não se constitui apenas, uma condecoração ou a ascensão de um lugar diferenciado no círculo acadêmico. Sempre considerei que o manejo do conhecimento se constitui numa ação para a vida, e todo aquele comprometido com este ofício, precisa pensar nas contribuições que o saber pode trazer às pessoas, inclusive à minha. Uma série de rupturas ocorreram neste momento, pois, “leva-se muito tempo para ser jovem” e um outro tempo para ficar maduro. Afastei-me da igreja e em seguida, o divórcio. Assim como os vasos comunicantes, “(...) os sentidos comunicam-se entre si e abrem-se à estrutura da coisa” (Merleau-Ponty, 1999 p. 308.

A Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty, bem como a hermenêutica de Gadamer e Paul Ricouer ampliaram o meu olhar sobre as questões relativas à interpretação e significação, o contato com a semiótica de Charles Sanders Pierce, também contribuiu para o aprimoramento deste processo de compreensão do real.

As descobertas no campo da sinestesia, também se apresentaram como um grande achado teórico, que veio confirmar a percepção e os investimentos anteriores. Nos caminhos e descaminhos, tive a feliz oportunidade de sair do Brasil, participei de um congresso de Design na Universidade de Palermo em Buenos Aires. Em nossas andanças pelas livrarias da Rua Córdoba, ressalto que estava acompanhado da Francimar. Ali, me deparei com um livro do David Le Breton, um não, dois. Nesta noite não dormi, devorei o livro, descobri a Antropologia dos Sentidos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

3. Da beira do mar para a beira do rio


No ano de 1995 cursei a disciplina Arte e Educação na qualidade de aluno especial no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFBA com o Prof. Sergio Farias. O contato com obras tais como: A Educação pela Arte de Herbert Read, As Educação Estética do Homem de Schiller, Teoria Estética de Adorno ou ainda Fundamentos Estéticos da Educação de João Francisco Duarte Jr.; ampliaram meus horizontes teóricos e tiveram influência direta sobre a prática em sala de aula, questão esta que só percebi algum tempo depois, quando fui homenageado pela turma de formandos do ensino médio por dois anos consecutivos.

Passei a utilizar métodos pouco convencionais e me percebia tentando trazer para a sala de aula, novos elementos que oportunizassem, àqueles rapazes e moças em formação, experiências mais significativas no campo do Ensino de Artes. Isto se estendia com os meus alunos de Piano, nas turmas de Musicalização Infantil no Colégio Adventista de Salvador ou no contato com os participantes do Coral da Igreja. Importante observar que, foi nesta época que realizei, junto com outros docentes idealistas e aventureiros como eu, na Escola Adventista de Liberdade, as primeiras experiências de caráter interdisciplinar no âmbito escolar.

No ano de 1998 fui convidado para dirigir um Conservatório Musical na cidade de Rio Preto da Eva, interior do Amazonas, distante 80 km da capital, Manaus. Aceitei o desafio, tive que abrir mão do mar, mas a floresta se mostrou muito acolhedora e o rio caudaloso, com sua tranqüilidade e impetuosidade velada, convidam-nos a pensar e re-pensar. Novas experiências no âmbito profissional, bem como a oportunidade de vivenciar uma nova cultura, se descortinaram diante de meus olhos.

No mesmo ano ingressei na Universidade Federal do Amazonas como professor substituto neste momento, me percebi responsável pela formação de novos docentes nas áreas de Música, Artes Plásticas e Pedagogia. Percebia novamente que seriam necessários novos investimentos em formação. Ir em busca de maior aprofundamento era um pensamento constante. É desta época a primeira publicação em periódico: “A educação musical no processo de educação integral”.

Neste ínterim, comecei a navegar pelos rios do Amazonas, conheci algumas cidades interioranas. As diferenças culturais se apresentavam de forma mais intensa, o contato com o homem ribeirinho e as comunidades indígenas se apresentaram como cenários culturais desafiadores à compreensão da identidade baseada na diferença, foi então que reconheci, à partir do contato com o outro a minha identidade negra e baiana.

A ação docente quer na capital ou no interior, tinha que ser ressignificada, não podia impor meus padrões de conhecimento e negligenciar os saberes locais, tradicionais e até milenares dos sujeitos com os quais estava entrando em contato. A minha ação, neste contexto, precisava produzir o diálogo, o conhecimento conjunto, a troca e a abertura para a interação com este outro diferente que requisitava minha atenção.

Foi neste momento que me encontrei de fato e de direito com a Antropologia Cultural. Clifford Geertz, Ralph Linton, Gilbert Duran, Bronislaw Malinowski e Leandro Tocantis (destaque para uma obra esplêndida deste autor, O Rio Comanda a Vida), começaram a fazer parte das minhas leituras. Muitos dos autores que li possuíam concepções teóricas diferenciadas, algumas até contraditórias mas, precisava relacionar-me melhor com este novo cenário.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

2. É preciso aprofundar



Ao concluir o curso de graduação em 1992, ainda não me sentia preparado para o exercício da docência, conseguia identificar uma série de ganhos, no entanto, percebia a necessidade de cavar mais fundo, a base teórica fornecida pela formação de graduação no que respeita à área de educação, se mostrou frágil frente aos desafios do “ser professor”. A ênfase tecnicista evidenciada no currículo do curso de licenciatura, só consegui entender quando ingressei no curso de Especialização em Metodologia do Ensino Superior da FEBA – Faculdade de Educação da Bahia.

O curso supra mencionado, apesar de se mostrar aligeirado, permitiu uma reflexão mais aprofundada sobre as ciências da educação e os processos de ensino e aprendizagem que lhe são inerentes. Ao ingressar no curso, juntamente com a saudosa colega de trabalho e amiga da adolescência Adorice Pires, não entendia muito bem a nomenclatura, nem o campo de atuação, mas o currículo me encantou, era tudo que estava procurando: Filosofia da Educação, Educação e Sociedade, Avaliação Educacional esta disciplina ministrada por Cipriano Luckesi, dentre outras, instigantes e desafiadoras.

As leituras e debates eram enriquecedores e foi Sergio Paulo Rouanet (1987) em “As Razões do Iluminismo” que proporcionou uma reflexão questionadora sobre a necessidade de rupturas com o paradigma de cientificidade vigentes e a possibilidade de inserção no discurso científico e por extensão, no didático-pedagógico, das questões referentes ao lúdico, à emoção, o sentimento; os domínios sensórios enquanto construtores do todo que é o ser humano.

Naquele momento fui convidado para ministrar aulas no ensino médio pelo Prof. Moacir Brum e aceitei o desafio, minha cabeça estava fervilhando de idéias e esta oportunidade se configurava como ascensão profissional, reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nos anos anteriores e a oportunidade de interagir com adolescentes, isto me fascinava.

Década de 90, as escolas da rede particular estavam encantadas com a teoria da Qualidade Total. Eu, como docente, sofri pressões para obedecer cegamente, aos princípios de Deming, e assim fiz. Esta corrente empresarial, transferida para o campo da educação, foi capitaneada no Brasil por Cosete Ramos dentre outros partidários. Foi então que resolvi dar uma resposta: efetuei uma revisão de literatura sobre esta questão como trabalho de conclusão de curso da especialização.
Começava a entender que as batalhas não são travadas apenas no âmbito da prática mas, também, no campo teórico e conceitual. Percebi que escrever seria uma maneira de não me violentar diante das questões impostas e que a escrita se constituía numa arma para vencer a ignorância.

Após a conclusão do curso de especialização em 1994, dediquei-me integralmente à docência, passei a pesquisar e produzir material didático para as aulas de Artes e Educação Musical. Impulsionado pelo contato com autores como Olga Reverbel, Ana Mae Barbosa, Olga Metting, Therezinha Requião, Alda Oliveira, Alfredo Bosi e Ernest Fischer. Criava jogos didáticos para as mais diferentes situações na sala de aula, alguns não resistiram à primeira aula, outros foram usados por muito tempo, alguns poucos, utilizo-os até hoje no ensino superior.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

1. Primeiros passos: a academia


“... "Abaixo o analfabetismo..."
(Major Cosme de Farias, advogado dos pobres)

No bairro Cosme de Farias onde nasci, esta localizada a saudosa Escola Lelis Piedade, ali iniciei meus estudos primários com a Profa. Adelaide. Quando “passei” para a 5ª. Série, vivenciei uma série de mudanças, a passagem da vida juvenil para a adolescência chegava com seus confrontos e conflitos. Cursei o 2º Grau no Colégio Luiz Vianna, longe de casa, caminhava 45 (quarenta e cinco minutos) para chegar até a escola, no verão muito suor e no inverno às vezes molhado. Iniciei estudando à tarde mas, aos 15 (quinze anos) precisava trabalhar para contribuir com o meu próprio sustento uma família de 4 (cinco) irmãos.

Assim, começa minha vida acadêmica, os livros sempre foram meus companheiros, até mais que os irmãos e amigos da vizinhança. Os netos de D. Marieta não podiam brincar na rua, sendo assim, o jeito era brincar de escola com os irmãos eu, como o mais velho, era o professor e disso sempre me orgulhei, era isto que eu queria: ser professor.

Após várias tentativas em faculdades públicas sem obter êxito, iniciei os estudos de graduação no curso de Licenciatura em Música na Universidade Católica do Salvador, no ano de 1989. Àquela época já havia aprendido a tocar piano por influência da igreja evangélica que passei a freqüentar aos 16 anos. Era o único negro em minha classe e aquilo ainda me causava estranhamento.

Nos primeiros meses ainda me sentia um peixe fora d’água e me perguntava se deveria realmente estar ali, mas isto logo passou, confesso que levou algum tempo. Depois que apresentei um trabalho oral, sozinho, na disciplina Teologia do saudoso Padre Rubens, todos queriam conversar comigo e convidavam-me para participar dos grupos de estudo e trabalhos em equipe.

A partir de então, uma série de descobertas acadêmicas se sucederam: os primeiros autores, os primeiros teóricos, as dificuldades dos primeiros semestres, os trabalhos complicados, as palavras difíceis, os aspectos técnicos de um curso na área de Artes enfim. Logo fui convidado para trabalhar na escola da igreja, chegou a hora do exercício da docência no ensino fundamental.

Nos primeiros anos, esta atividade se constituiu por demais desafiadora, face à inexperiência profissional e a percepção acerca da incompatibilidade entre os conteúdos estudados no curso de graduação e aqueles requisitados no exercício da docência. Neste processo, fui me percebendo docente e aprendendo a ser professor. Aprendendo com meus pares e com os próprios alunos, tal como declara Tardiff (1991).

Na academia, os contatos com as disciplinas e os conhecimentos dela advindos, favoreciam a emergência de muitas questões, dentre elas: o descompasso entre teoria e prática, a negação aos alunos de oportunidades de aprendizado significativas e relacionadas com sua vivência, o ocultamento das especificidades culturais (gênero, classe social, etnia, religião), questões estas que me causavam angústia e para as quais não tinha resposta.

Esta realidade era evidente, tanto na escola de ensino fundamental, como na faculdade, então me perguntava: Onde estará Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido, e Edgard Willems, pedagogo musical que defendia a necessidade de “unir continuamente o ritmo à vida” (Wilhems, In Rocha, 1990). No entanto, as respostas para tais questões, longe de serem desmotivadoras, acabavam se constituindo num desafio.

sábado, 3 de outubro de 2009

Michel Maffesoli anotações da Conferência


Conferência I Michel Mafessoli I 02.10.2009 I IAG I PUC-Rio

O Retorno do Sagrado

Michel Maffesoli, tomou os sistemas do sagrado como o ponto de partida para a discussão. Segundo ele uma fórmula que nos interessa para a cultura grega neolatina, esta relacionada com a “gênese e declínio” como os elementos constantes da vida. Ele ressaltou como a classe intelectual tem uma desconfiança no tocante à vida cotidiana.
As imposições da vida pesam sobre o homem e apesar disto, vivemos “o levar a sério a vida”. Segundo ele, não se está falando em aniquilar ou em destruir a razão mas, na inclusão da razão sensível que comporta não apenas o “ou/ou” e sim o “e/e”. Diante da impossibilidade de uma sensibilidade teórica numa perspectiva de enriquecimento do ser.

Para o pensador, estamos no começo de uma nova ética, diferente da ética relacionada com a moral. Trata-se de uma ética pensada sobre o ponto de vista daquela ética grega, que relaciona o termo ao modo de ser, ao caráter, em suma, uma síntese dos costumes de um povo, diferentemente do conceito de moral restritiva, redutível.
Nesta ótica Maffesoli, apontou para a principal função do intelectual: a provocação, a capacidade de provocar e fazer pensar. Indicou ainda a necessidade de encontrar palavras que estejam em harmonia com o que entendemos e vivemos atualmente, uma vez que há uma carência, segundo ele, de verbetes que traduzam as formas de pensar e de agir contemporâneos.

Neste sentido, dirigiu a discussão para a responsabilidade de resgatar o debate e a troca como princípios fundadores da universidade. A transversalidade do conhecimento e do saber, foi citada pelo pensador como um caminho possível, na contra-mão de um saber baseado no dogma que não pode ter a pretensão de ser a única possibilidade de interpretação do real.

Ressaltou ainda que, como pesquisadores, nós preferimos as afirmações dogmáticas e positivistas, marxistas, freudianas, positivistas, dentre outras. Para ele, precisamos colocar tudo isto em questão, “esta é a grande urgência da universidade”, declara Maffesoli.

Na perspectiva do resgate e da necessidade de novas formas de compreensão do real, o pensador requisita as teorias do imaginário de Gilbert Durand. Maffesoli considera que, se levarmos a sério o imaginário, poderíamos entender melhor o cenário das novas tecnologias da comunicação e informação que, segundo ele, estão todos baseados nas interconexões do imaginário.

Ao requisitar o imaginário como categoria para pensar o momento presente, Maffesoli ressalta que o cotidiano, o dia a dia, a vida das pessoas onde elas estão, precisa ser pensada de forma localizada. O cotidiano, segundo ele, precisa ser pensado como estando acima e não abaixo da experiência. Experimentar a vida, a permanência, a continuidade, a integração a alteridade do outro (natureza, indivíduo e grupo).

Sobre esta questão Maffesoli fez referência a Heidegger e sua idéia da acerca da simplicidade do cotidiano, o retorno às coisas simples, os chás, as plantas medicinais, as ervas e “tudo aquilo que cuidada de nós”. Na confluência desta cotidianidade estão os mitos as fábulas, os delírios, as mitologias e fantasmagorias de uma sabedoria secreta, questões estas que o pensador, apoiado em Baudrillard, afirmou que precisam ser conhecidas para que possamos entender a vida moderna, para além de uma perspectiva crítica, numa busca dos pensamentos nas raízes. “Não sou apenas eu que penso mas, isto pensa através de mim e de certa forma eu sou o alto-falante, eu sou o retorno de alguma coisa”.

Maffesoli, ao ingressar no campo mítico e mágico, pergunta: como olhar o sagrado sob uma perspectiva pós-moderna? O pensador entende que para responder tal pergunta faz-se necessário desenvolver uma sensibilidade teórica que acompanhe o vivido para além do sentimento de unidade, enquanto categoria teórica da modernidade, que começa com Santo Agostinho que dizia: “a razão humana conduz à unidade” instituindo assim o monoteísmo como única tradição possível no campo do sagrado.

Tudo foi reduzido à unidade. Comte, em seus postulados, também buscou e trabalhou a idéia de unidade. A idéia de redução unitária em detrimento da polissemia se funda na organização racional da sociedade. Neste aspecto, a teologia no século XVIII vai levar-nos à teodicéia, à uma racionalização do sagrado.

Weber, na obra, A Lógica Protestante e o Espírito do Capitalismo, define o que viria a ser a sociedade moderna diante da perspectiva de sua capitalização e psicanalização no conjunto da vida social. Esta desmagificação do mundo, segundo Maffesoli, conduz ao seu desencantamento e à percepção do racionalismo como sistema hegemônico.

Analisando as relação da sociedade contemporânea com o imaginário, Maffesoli, parte das idéias de Gilbert Durand, para dizer que a questão iconoclasta eliminou o ícone, quebrou a imagem. O iconoclasmo quebrou os ícones femininos ocultos nos lugares altos do Mediterrâneo, anulou a possibilidade do sagrado pelas vias da imagem, do ícone e por extensão, do mito.

Na visão do pensador, o que é próprio da imagem é o despertar da histeria, defende a idéia de que na imagem, existe algo que faz reagir o centro e as entranhas e não apenas o cérebro. A questão iconoclasta está fundada no rompimento com a imagem pois, ela solicita o homem em sua inteireza, surge então a necessidade de romper com ela, o que não se constitui numa ação neutra.

Ilustrando esta questão Maffesoli recorre àquilo que ele denomina de épisteme de Michael Foucault, para quem as formas de representação vão adquirir um sentido importante na construção de uma compreensão sobre a psique humana, e como conseqüência desses elementos busca, os caracteres individuais e essenciais de uma época através dos registros e pegadas deixados por aqueles que viveram aquele momento singular.

Para onde vamos?

A idéia de saturação e superação é discutida por Maffesoli. Para ele nossa maneira habitual de colocar os problemas consideram que as fantasias do “nada” (da criação) ao “nada” (o fim do mundo), conduziram à uma consciência de que algo tende a cessar. No entanto, a reconstrução de outra maneira de pensar, e a inversão das polaridades, do fim ao começo, podem se constituir oportunas para viver a o momento presente.

“o mundo é mundo” (Santo Agostinho)
“a infâmia da existência” (Luckacs)
“o intelectual é o cavalheiro da raiva” (Freud)

Essas frases, na concepção de Maffesoli, apontam para o fato de que, permanecemos numa postura crítica que vai rejeitar o que deve ser rejeitado, preservando uma tradição judicativa e normativa do real, entre aquilo que é legal (onde consideramos que estamos) e o que é real (o cotidiano). Tal perspectiva deve conduzir à uma investigação séria das fantasias, dos mitos, dos contos e lendas que permeiam o imaginário social.

Maffesoli dirige-se aqui para a necessidade uma Ecosofia, compreendida como sabedoria, como a casa de todos. Para ele, não podemos compreender a civilização sem compreender o outro (da natureza, do mundo, da sociedade), sem reduzir o outro ao mesmo como na perspectiva Comtiana num ajustamento do outro que se torna eu mesmo. O outro permanece o outro, e a questão que se coloca é como ajustar essas pequenas alteridades umas às outras o que fez Maffesoli perguntar com Heidegger: como passamos de um ser infinito a um ser nominal?.

Vivemos numa crise de sentidos diz ele, onde toda intenção que não foi pensada é louca, o que se está querendo quebrar é esta noção, de que as coisas podem ter sentido sem ter finalidade. Nossa forma de pensar o mundo sempre esteve relacionada com a expressão, com a dominação esquemática, masculina, do estado de projeção para frente e para o futuro, no sentido da exaculação, o real com sentido de finalidade.

O ideal, por sua vez, se constituiria no retorno à vagina, ao centro, ao útero, ao oco, ao buraco, através de uma ecosofia não mais centrada numa energia que se projeta para longe mas algo que nos falta, volta-se para o aqui e o agora, que leva à sério o local e o mundo onde estamos. Local de existência de um microcosmo onde está o indivíduo e um macrocosmo social, entre esses dois extremos. Maffesoli identifica o mesocosmo que, segundo ele, se constitui no elo, na religação e na realiança.

O imaginário para Maffesoli, não é redutível à imagem, enquanto uma coisa mental, remetendo a Da Vinci. Ele antevê a possibilidade de um materialismo espiritual e místico, uma remagnificação do mundo, através dos meios de comunicação interativa, aquilo que vai me religar com o microcosmo. Por outro lado, observa-se uma volta ao místico mesmo na política, ao mistério, àquilo que une os iniciados entre si: mistério, mítica, mítico, mundo, o mistério o mito que dividimos entre nós.

Não estamos mais no mito do progresso é necessário entender o pregressismo e o pensamento pregressita onde, aquilo que não é progressista soa como reacionário. Em vez de pensar em regressão ou voltar ao anterior ou à regressão, que não é regressão, seria o ingresso num pensamento e numa energia que é aqui, que traduz o espírito do tempo, estamos aqui num lugar que precisa assentar-se no outro, na natureza e numa relação de alteridade entre ambos.

Corroborando com este pensamento, Maffesoli, recorre á Gilles Deleuze para quem, não somos de um mesmo sexo, de uma mesma relação e de um mesmo local mas, para compreender esta assertiva, “precisamos tomar a sério as dobras que regulam a sociedade”. Sinergias do arcaico estão presentes no desenvolvimento da tecnologia, a aplicação dos momentos da tecnologia como forma de realização de nossos delírios imaginários.

Nesta perspectiva, encarar as tecnologias e criações humanas apenas sob a ótica lógica enquanto tese, antítese e síntese, nos conduziu apenas à identificação do “mal” como forma de chegar à perfeição e a uma sociedade perfeita. A música, as artes de um modo geral, o cinema, o entretenimento, não são mais a busca da perfeição mas, ajustar-se a isto integrar-se a isto, às singularidade. A humildade do humano e o reconhecimento dos limites através da humildade, se constitui numa atitude dialética de adaptação a este novo mundo.

Por fim, o pensador concluiu afirmando a necessidade de uma ultrapassagem à idéia da retomada e de retorno ao arcaico, “pode parecer uma distorção do mundo tal como o conhecemos, tratam-se de processos complexos que não se completam”. Para tanto, Maffesoli, nos convidou e nos convida a entender o sagrado através da imagem de uma espiral, o sagrado irredutível à unidade, à mística, isto está vinculado, de certa maneira, à idéia de sabedoria secreta. A busca por uma epifanização.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Imagens de BH


Imagens de BH

Já conhecia a cidade, passei por ali algumas vezes, preocupado com o trabalho e com as responsabilidades .

Sem os compromisso do labor, não foi difícil perceber como a cidade é fluída, como a urbe se organiza, como os problemas que ela enfrenta não são diferentes de outros lugares.

No final, São Paulo, Salvador, Manaus, Rio, Recife e BH, enfrentam são modernas, são todas iguais.

A cidade tem seus atrativos, “BH não tem mar mas tem bar”.

Cidade grande com jeitinho de cidade do interior, povo acolhedor e hospitaleiro, sisudo, sorridente, atento, nervoso, ansioso, veloz, calmo, seguro, inseguro...

A cidade me recebeu de braços, portas e janelas abertas. Andei pelo centro, vi seus monumentos, igrejas ecléticas, símbolo da religiosidade mineira.

Praças arborizadas, projetos futurísticos, o moderno e o antigo: contraposição, talvez simbiose, tendência...

À noite, luzes de uma cidade acesa, vigilante, que se ergue cercada de montanhas. BH tem uma tendência à verticalidade que se acentua como que se projetasse para o alto, corroborando com sua vocação para ser grande.

Seus bares, compensam os mares, bom vinho, boa música, tendências, novidades, essências, cardápio de jogos, que manero (como dizem os cariocas!). Comida boa, à mineira.

Mercado Central, um show à parte. Ali, a cidade se encontra, culturas, tendências, os artefatos testemunham a confluência de raças, de povos, de jeitos e trejeitos, e de tendências. Os bares cheios, numa tarde quente de sábado, bebem, falam em meio àquela diversidade ... BH é Brasil.

À tarde Rodin, a Casa Fiat situada numa nova BH, cheia de grandes empreendimentos, pós-modernos, surreais, globais. A exposição, muita informação, uma riqueza sem fim, passamos horas ali. Ao lado estava Chagall, outro espetáculo de imagens, cores, formas que impressionam os sentidos e me dizem: a grande motivação é o amor.

O Mirante, ver a cidade iluminada, fotos, muitas fotos, a verticalidade, rumo ás alturas, o claro, o escuro, o tom, a cor, o som, mais arte, mais vinho, mais música, agora numa potente voz feminina, expressiva, simples, complexa, emocionante.

A síntese daquele fim de semana ímpar, excitante, quente, consciente, envolvente.

A Feira da Afonso Pena, um espetáculo à parte, desta vez não consegui fazer todo o percurso, olhar detalhes e seus transeuntes, ainda cansado do dia anterior, me interessava as obras de arte, os quadros.

A hora de partir, a despedida, um misto de emoções, inebriado, voltei para casa e aqui, sentado, posso dizer: saudade de BH, uai!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Bono


Bono, upload feito originalmente por zibgniev.

A conjugação de formas sua centralidade e contraste, lembram o quando a vida é fugaz, é limpída, é clara, é simples e ao mesmo tempo, tão complexa...